Siderúrgicas repassam câmbio e reajustam aço

A persistência do dólar alto já animou as siderúrgicas a repassarem custos e os preços internacionais a seus clientes no Brasil. ArcelorMittal, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Usiminas anunciaram reajustes para o aço vendido para distribuidores e parte da indústria. Agora, a grande batalha deve ser travada na mesa de negociação com as montadoras, para que os sucessivos aumentos deste ano sirvam também para as fabricantes de automóveis, que possuem contratos mais longos.

Os preços maiores passaram a vigorar na segunda-feira e representam um avanço médio de 10% ante o que era praticado em agosto. Segundo uma fonte, contudo, mesmo encarecendo os produtos, as siderúrgicas locais ainda vendem o aço praticamente ao mesmo preço do importado, já considerados os custos de internalização no país. Em geral, considera-se um "prêmio" de até 10% para os itens nacionais como sustentável, dada a maior facilidade de entrega e assistência técnica por aqui. 

Com isso, a rede de distribuição e boa parte da indústria local que não possui contratos de longo prazo - semestrais ou anuais - já recebeu cerca de 30% de reajustes durante 2018. Luis Martinez, diretor comercial da CSN, disse ao Valor que, de saída, vai propor às montadoras que o reajuste para os contratos do ano que vem seja na casa de 25% a 30%. O Valor apurou que esse é o pedido geral entre as fabricantes nacionais de aço. 

A negociação das siderúrgicas com a indústria automotiva é das mais duras do setor. O poder de barganha desses consumidores de aço é dos maiores por causa do volume de compras que realizam. Em 2017, cerca de um quarto do aço que foi produzido no Brasil foi entregue às montadoras. Por outro lado, caso o dólar se mantenha no patamar atual, próximo a R$ 4, e a cotação internacional dos produtos - em especial da China - também resista, dificilmente o reajuste poderá ser menor que esse. 

Além de estreitar a diferença de preços com o exterior, os aumentos deste ano serviram também para recompor a rentabilidade das empresas, dado que não só o preço das matérias-primas também não sofreu desvalorização relevante - o carvão de coque chegou a registrar alta nos últimos meses - como grande parte desses insumos é importado pelas siderúrgicas. 

A novidade na última rodada de reajustes foi o espaço aberto para aumentos em aços longos. A procura por esse tipo de produto, usado principalmente na construção civil e pesada, está mais deprimida do que o segmento de planos, destinado à indústria automotiva, máquinas e equipamentos e linha branca. Por isso, por um bom tempo em 2017 e 2018 o produto nacional foi vendido mais barato do que o importado internalizado. 

De janeiro a julho, o consumo aparente - vendas internas das siderúrgicas mais importações - de aços planos ficou em 7,27 milhões de toneladas, 11,1% a mais do que no mesmo período do ano passado. No caso de longos, a alta foi de 7,7%, para 4,63 milhões de toneladas. Apenas recentemente essa área voltada à construção passou a estabilizar suas vendas, após anos de sucessivas quedas. 

A CSN promoveu alta de 10,25% no preço de seu vergalhão neste mês, trazendo mais perto de zero o prêmio sobre o item estrangeiro. Segundo construtoras, outras empresas como a Gerdau já começaram a anunciar que vão vender o produto mais caro. Se houver continuidade na recuperação do segmento, é possível que a estrutura de preços se ajuste daqui para frente. 

Fonte: Valor 
Seção: Siderurgia 
Publicação: 06/09/2018